Saúde
Hospitais registram baixa no índice de doação de órgãos
Reflexo de um cenário nacional, Zona Sul também apresentou queda nas doações
Jô Folha -
Na reta final deste mês de setembro, o Ministério da Saúde lançou uma nova campanha nacional de incentivo à doação de órgãos, que vai até o próximo dia 24. Os índices caíram cerca de 40% neste ano de 2020, em função da pandemia. Na Zona Sul, o cenário não é diferente. Também em decorrência da Covid-19, a região de Pelotas registrou uma queda de mesmo percentual no número de doações.
Segundo dados da Organização da Procura de Órgãos (Opo) 5, relacionados às doações na área de cobertura da instituição - hospitais de Pelotas, Rio Grande, Bagé e Canguçu que fornecem dados mensais -, também houve uma queda de 40%. Quando há a chance de um paciente ser doador, é aberto um protocolo para confirmar esta possibilidade. A testagem para a Covid-19 foi acrescentada na rotina de exames toda vez que é aberto um protocolo. "Nós analisamos se há contraindicações. Procuramos identificar eventuais comorbidades. Alguns pacientes possuem 'contra-indicação', outros possuem doenças como tumor, Aids, que impossibilitam a doação. É um processo que levamos com muita seriedade", explica a coordenadora da Opo 5 e da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos da Universidade Federal do Rio Grande (Cihdott-Furg), Fernanda Almeida. Após receber estes dados, a Opo encaminha as informações para a Central de Transplantes, que fica em Porto Alegre.
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No ano passado, foram 46 notificações de possíveis doadores, entre pacientes que tiveram morte cerebral ou possuem notificação obrigatória. Destas, 15 doações foram consolidadas. Outros 16 não puderam doar em decorrência da negativa dos familiares e 12 tiveram contraindicações, não sendo aprovados pelo protocolo das autoridades médicas. Ainda tiveram três possíveis doadores que tiveram uma parada cardíaca antes de terminar o processo. "Tivemos uma reunião em Porto Alegre e todas as Opos tiveram uma redução. Houve um aumento significativo nas contraindicações em função das mortes pela Covid-19. Mesmo que o paciente pudesse doar, fosse aprovado pelo protocolo e tivesse autorização da família, não poderia doar por esta contraindicação. A morte pelo coronavírus não permite que os órgãos sejam doados", destaca Fernanda.
Neste ano, os índices acompanharam os números nacionais e tiveram uma queda. Até o mês de agosto, ocorreram 35 notificações e apenas nove doações aconteceram. Seis foram negadas pela família e dez esbarram nas contraindicações. Outros seis possíveis doadores tiveram parada cardíaca.
Negativa familiar
Outro fator que influencia na queda do número de doações é a negação dos familiares. Muitas vezes, o paciente vem a óbito e os parentes não permitem que seja realizada a doação. "É uma luta diária nossa. A gente faz entrevistas com a família, abordamos para dar oportunidade, tentar fazer com que aquele ente querido que se foi possa trazer esperança para a vida de alguém. É uma oportunidade de ajudar o próximo", conta a enfermeira do controle de infecção da Beneficência Portuguesa de Pelotas, Inês Valente.
O processo é totalmente seguro. É realizado um procedimento cirúrgico com profissionais especializados que consolida a doação. "Vem uma equipe de Porto Alegre para fazer a retirada dos órgãos, são pessoas capacitadas. Às vezes, essa negativa tá ligada a outros fatores, falta um certo diálogo. Precisamos quebrar um pouco este tabu, porque há pessoas que necessitam. Uma pessoa que seja doadora salva oito e pode tirar várias pessoas de uma fila de transplantes", destaca Fernanda.
A diferença na vida de alguém
Há pouco menos de três anos, Leandro Goulart, que na época tinha 28 anos, recebeu o diagnóstico de falência dos dois rins. Seria necessário fazer hemodiálise para poder solucionar o problema. Posteriormente, um transplante foi a medida mais indicada para esta situação. Ele entrou na fila em janeiro de 2018. Foram dois longos anos de espera até a operação, que aconteceu em maio deste ano, já durante a pandemia. "Ele era o quatro na fila e precisou ir fazer o teste contra o coronavírus. Como deu negativo, ele subiu para o segundo lugar da fila", recorda a esposa de Leandro, Carla Alpoim. O transplante aconteceu no Hospital São Lucas, que pertence à PUC, em Porto Alegre.
A expectativa era de que Leandro ficasse, no mínimo, um mês internado. Entretanto, pelo seu estado de saúde, conseguiu se liberar dentro do prazo de uma semana. "Foi uma recuperação rápida e que os médicos consideraram bastante rara. Depois de três meses, já sinto os reflexos da liberdade do tratamento. A pessoa que tem insuficiência renal tem quase que total privação da ingestão hídrica e também na alimentação. A liberdade neste dois pontos é o principal reflexo nesta recuperação", afirma Goulart. Ele ainda exaltou o trabalho, compromisso e amizade dos profissionais que o cuidaram durante o tratamento. Também frisou a importância da doação de órgãos. "A gente via anteriormente anúncios sobre doação e era algo muito distante da nossa realidade, não nos chamava muita atenção. E foi algo que salvou minha vida, que me fez renascer. Foi um ato de amor", ele descreveu.
Como ser doador?
- Segundo a legislação brasileira, a doação de órgãos só pode ser feita após autorização familiar.
- Se o doador (a) for paciente vivo, ele poderá disponibilizar parte do fígado, um dos rins, parte da medula óssea ou parte do pulmão. Se a doação não oferecer risco à saúde, ele poderá fazê-la.
- Pela lei, parentes até o quarto grau e cônjuges podem ser doadores. Não parentes, só serão doadores com autorização judicial.
- Quando o doador já faleceu, os órgãos são destinados para pacientes que necessitam de um transplante e estão cadastrados em uma lista que é organizada pela Central de Transplantes da Secretaria de Saúde de cada estado e controlada pelo Sistema Nacional de Transplantes.
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